sábado, 7 de novembro de 2009



Patos de Minas, 11 de outubro de 2009

Ana Paula,

Quando eu te conheci a primeira impressão que tive sua, era de uma garota calada e tímida. Daquelas meninas que nem respiram com medo de chamar a atenção das pessoas a sua volta. Mas, como diz o escritor e todo-poderoso-das-blogueiras Antonio Prata: "A primeira impressão é a que fica – para trás", tudo o que eu pensei sobre você não era a realidade. Ainda bem que você não era assim. Porque, cá entre nós, o seu jeito de ser é infinitamente melhor do que qualquer maneira que eu te imaginasse.

Não sei se é coincidência, ou se devemos acreditar que os nomes influenciam em nossa personalidade. Não sei se você é tão cheia de graça por se chamar Ana. Ou por você ser tão cheia de graça foi chamada de Ana.

Nós duas nos parecemos muito pela vontade de querer mostrar ao mundo que nós somos mulheres de opinião e para acrescentar temos gênio forte. E para aqueles que, algum dia, nos rotularam como "pessoas do contra", só posso responder com uma citação: "Cabeças vazias têm grande facilidade em balançar para cima e para baixo, em sinal de sim."

Sinto muita falta dos momentos que nós conversávamos sobre tudo, nada escapava a nossa língua afiada e a nossos pensamentos irônicos. Podíamos falar o que quiséssemos que não sofreríamos qualquer censura uma da outra. Sem você aqui perto de mim recorro ao apogeu da loucura e converso sozinha, porque não há ninguém nesse universo que me deixa tão à vontade para prosear como você.

Ouço um nome estranho e penso: "A Ana Paulinha riria comigo se ouvisse isso!". Se alguém fala de Diamantina, João Pinheiro e Capelinha, adivinha qual a primeira pessoa que vem a minha cabeça? Quando alguém me pergunta: "Kamilla, com quem você aprendeu fazer tal coisa em Química, Física e Matemática?" Eu respondo: "Com a minha amiga Ana Paulinha".

Como nós já fizemos a nossa lista de coisas-para-fazer-antes-de-morrer, temos e teremos muitas histórias para contar para os nossos bisnetos (é amiga, hoje com a longevidade do brasileiro nem são mais histórias para contar para os netos). Já imagino a nossa viagem para Itália e Alemanha, preciso acrescentar que poderíamos dar uma passadinha em Barcelona, porque vi um filme que se passa lá e me apaixonei pelo lugar, tenho certeza que você também irá amar.

Esta carta deveria ser enviada no dia do seu aniversário, mas por motivos de forças maiores: meus desumanos vestibulares, ela chegará a seu destino bem antes da data correta. Eu sei que você compreende essa minha antecedência. Dia 21 de novembro é tão importante para mim quanto o meu próprio aniversário, porque nesse dia nasceu umas das pessoas de que me mais gosto, aprecio, admiro e que faz parte da minha história. Eu lhe dou os "Parabéns" e lhe agradeço o presente da sua existência na minha vida.


Com carinho,


Kamilla Barcelos (ou simplesmente Barcelos)

sábado, 10 de outubro de 2009

RECEITA DE BOLO? ME DÁ UM PEDAÇO?


Rio de Janeiro, sol, mar, praia, Bossa Nova, cariocas bem nascidos, relacionamentos conturbados, momentos cults, poesias, notícias de jornal, Helenas aqui, José Mayer acolá... Eu só poderia estar falando das novelas do Manoel Carlos. Se elas são escritas como uma receita de bolo, com fórmula pronta, como a maioria dos telespectadores critica, então me dá um pedaço que eu quero degustar.

Eu, como a maioria dos brasileiros, gosto de novela. Eu repito e digo: gosto de novela. Logo, estão descartadas as "novelas" do Aguinaldo Silva, Glória Perez e Carlos Lombardi.

Ao mesmo tempo que nós gostamos de ver a realidade escancarada na televisão, também apreciamos uma pitada de sonho. Sabe como isso chama? Verossimilhança: o que não ocorre com frequência na vida real, mas poderia acontecer. Esse é o segredo do Manoel Carlos. Além disso, o escritor já disse mais de mil vezes que só escreve sobre aquilo que ele conhece e faz parte da sua vida. Ele nunca teve a pretensão de relatar sobre as classe sociais que ele não tem tanto conhecimento. Como diz uma amiga minha: "Se eu quiser ver pobreza eu vejo o Jornal Nacional, programa do Datena ou Casos de Família." Quem sou para discordar? Acho engraçado que os personagens manelescos quando nunca chamam algum companheiro para "tomar uma depois do trabalho", sempre "tomam um drink depois do trabalho".

Eu suspiro com as novelas dele como a moçoilas do século 19 com os livros do Romantismo. Pode estar passando na televisão a cena mais simples do mundo de personagens tomando café da manhã, tudo parecendo tão normal, quando eles proferem aquelas frases de efeito que só o Maneco sabe escrever. Só disso que eu preciso para me emocionar, mais nada!

Para quem acha que as novelas dele estão passando por um período de gloriaperização, por ter viagens internacionais, a culpa não é do escritor. A Globo "incentiva" que a maioria das novelas tenham passagens no exterior.

Só para constar o único defeito das novelas dele são os títulos. Eu esperaria dele algo mais criativo. Tudo bem, nem tudo pode ser perfeito!

sábado, 3 de outubro de 2009

SAT NO PAÍS DO PAU-BRASIL EXTINTO


Eu só tenho uma dica para dar para vocês: não mexam com um vestibulando! É nesse momento da vida que estamos a flor da pele e qualquer palavra mal colocada pode provocar a nossa ira. Isso se deve a carga horária dos nossos estudos na escola/cursinho que já é extensa, mas é claro que precisamos estudar muito mais em casa. Para quem vai pleitear um curso concorrido não adianta desmentir, nós vivemos para passar no vestibular. É claro que a gente escuta música também: de vestibular. Lemos livros: de vestibular. Assistimos a filmes: de vestibular. Namoramos o vestibular. Ok, eu exagerei, mas o nosso universo é mais ou menos esse.

Quando temos uma prova a ser realizada nós organizamos tudo: a que horas a gente vai chegar para realizar o teste, qual a roupa mais confortável, alimentação leve, caneta que o vestibular exige, os documentos que é preciso apresentar no dia. Ordenamos o nosso cronograma da semana inteira, para que no fim de semana estejamos aptos para fazer uma boa prova.

Com a prova do ENEM não foi diferente, talvez foi até mais intenso a nossa preparação porque especialmente este ano o governo federal resolveu modificar a prova. Bem este ano!

Ao chegar as sete horas da manhã em uma plena quinta-feira, no cursinho, meus colegas vem me falar que a prova do ENEM foi adiada. Eu como a maioria achou que era pegadinha, RÁ! Mas, não era. E o pior foi adiada por suspeita de fraude. Como que eles querem que acreditamos nessa mudança e que o exame será parecido com o SAT? Se antes já tínhamos dúvidas a respeito do conteúdo a ser cobrado na prova, temos questionamentos se realmente as faculdades vão utilizar a nota da prova nos seus processos seletivos, se a prova coincidirá com os outros vestibulares e se ela estará guardada em sigilo (que é como deve ser).

Obrigada, ministro por querer fazer essa revolução no exame bem quando eu preciso muito passar no vestibular! Obrigada pessoa que fraudulou a prova de mais de 4 milhões de estudantes que já tinham-se organizados para realizá-la neste fim de semana e que dependem muito dela para entrar em um faculdade! O que nós vestibulandos não precisávamos era de mais preocupação na vida. Já temos em excesso!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

PERGUNTA DE TIA

Você pode ser do Alasca ou da Lagoa Formosa, pode ser professor ou mecânico da oficina da esquina, pode ser um ativista ambiental ou um poluidor em potencial, pode ser homem ou mulher... Ah tá, vocês já entenderam onde eu quero chegar. Você pode ser quem você quiser, mas se você tem uma tia e está solteiro, toda vez que você a vir ela te fará aquela pergunta adorável:

_E o namorados? Porque eu na sua idade não perdia tempo!

O pior de tudo é que elas acham que estão arrasando tentando adentrar nesse tipo de assunto com a gente. O que custa elas perguntaram para a gente sobre escola, vestibular, festas, roupas, celebridades, políticas, novelas, músicas, filmes, crise, pré-sal... Por que sempre tem que ser sobre namoro?

Aposto que todo mundo que tem tia já ouvi essa pergunta-de-tia! É algo inerente a função social de tia perguntar sobre a nossa vida amorosa? Aliás, esse é um bom tema para ser estudado nos futuros livros de sociologia: O mistério das tias sempre perguntarem aos seus sobrinhos acerca de namorados e afins.

Vou propor cursos preparatórios para tias, nele ensinará os tipos de conversas que você pode ou não ter com seu sobrinho, incluindo apostilas e CD para ouvir no carro todos os ensinamentos. Quem sabe assim elas parem de fazer essa pergunta cruel. Se brincar elas cessam de fazer tal questionamento e vão para um pior, como: ... Realmente não tem nada pior do que perguntar sobre namorados. Principalmente quando você não está namorando ninguém.


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

EU NÃO TENHO FUTURO

Pelo menos uma vez na vida, cada um de nós já encontramos pelas ruas, pelas praias e nos lugares mais inusitados; aquelas ciganas que insistem em ler nossas mãos. A primeira reação que temos, quando elas nos cercam para arrancar dez reais da gente por uma leitura do nosso futuro, é ser hostil e dizer que não acreditamos em nada disso. E eu não fujo à regra, eu também não acredito. Mas, desacreditar nem sempre significa não se expor a esse tipo de situação, certo?

Uma vez, perto de uma antiga casa que eu morei, era comum em um imenso loteamento aparecerem de tempos em tempos caravanas de ciganos. E como a curiosidade matou o gato, eu, uma amiga e seu pai fomos lá. Chegando ao local, não sei se é porque eu tinha somente nove anos de idade, eu senti pairando no ar um sentimento de medo pelo desconhecido. A cada canto que eu olhava eu via pessoas bem diferentes, mulheres com aquelas saias e cabelos longos. Homens também de cabelos grandes. Todos com o semblante sisudo e enigmático. Havia muitas crianças correndo livremente pelas barracas coloridas, em que nelas residiam. Nesse momento que me lembrei que existia uma lenda dos ciganos raptarem as crianças que estavam desacompanhadas pelos pais. Eu respirei fundo aliviada, porque eu e a minha amiga estávamos acompanhada de seu pai. Por incrível que pareça mesmo assim eu sentia medo.

Entramos em uma barraca que fazia muito calor dentro dela, onde estava uma senhora sentada em cima de uma pano desbotado, no chão. O pai da minha amiga perguntou se ela poderia ler a minha mão, porque eu já tinha demonstrado interesse pelo assunto. Depois da resposta que ela me deu, a minha vida mudou completamente. Olhando para mim, praticamente me intimidando, não me esqueço do olhar dela até hoje, ela respondeu:

_Impossível! Nem futuro essa menina tem!

Até hoje eu me pergunto, o que custava ela me dizer, como todas as outras ciganas do mundo, que eu iria me casar, ter filhos, ser rica, sofrer de uma doença, perder alguém da família? O meu medo é que aconteça o que essa cigana mal amada me disse. Pelo menos nas novelas as ciganas sempre acertam.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

NASCEU HOMEM E MORREU MENINO


Quando escrevemos qualquer texto, uma carta, uma crônica, um livro, um bilhete para um amigo; deixamos muitas vezes intrínseco nas nossas palavras, frases e pontuações nossas características como: idade, experiências de vida e até de onde somos. Isso mesmo, pois ninguém precisa me dizer que o Ariano Suassuna é do Nordeste, seus textos me dizem.

Nem que o Fernando Sabino é mineiro, pois suas frases exalam um cheiro de pão de queijo, bolo de fubá e um cafezinho passado na hora, por favor. Não sei se todos os leitores conseguem ter essa sensação, mas quem é mineiro sabe o que eu digo.

Quando leio os livros dele, parece que as palavras fluem de um modo mais cadenciado, do jeito mineiro mesmo. Eu disse mineiro, não caipira (nada contra, mas são sotaques bem diferentes). Além disso, as situações que ele descreve são bem típicas de Minas Gerais.

A mineirice dele fica evidente principalmente nos livros "O Encontro Marcado" e "O Menino do Espelho". O primeiro eu li incentivada pelas críticas positivas que ouvi. Preciso declarar que eu não achei tudo isso que falaram. Mas, tenho vontade de ler daqui uns bons anos. Talvez eu consiga sentir o que realmente Sabino queria passar com seu livro. Já o "Menino no Espelho" é fantástico. Era leitura obrigatória de um vestibular e tornou-se um livro obrigatório para ser relido por mim. Esse livro é sobre a infância do autor que a demonstra de um jeito bem leve, em que a imaginação e a realidade se misturam tão facilmente, que suas brincadeiras, suas ideias mirabolantes tornam-se tão nossas quanto dele.

Fernando Sabino para mim é aquela pessoa que todo mundo gostaria de ser seu amigo, ou no mínimo poder ter uma boa conversa num boteco que vende mandioca com pelotinha como petisco. Ou se encontrar na pracinha com ele, talvez compraremos pipoca daquele senhor que está lá desde a existência da praça, ou até antes dela. Iríamos prosear. Seria tão Minas Gerais. Tão interior. Tão Fernando Sabino.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

EU ME RENDO



Sou filha de um professor de violão que consegue conciliar MPB com música erudita. Essa foi a educação musical que eu recebi do meu pai. Isso significa que na minha infância eu não ouvia as músicas que as crianças da minha idade gostavam como as da Xuxa, da Angélica, da Eliana, das Chiquititas... Eu escutava com frequência Milton Nascimento, Chico Buarque, Tom Jobim, Elis Regina e Marisa Monte. E o máximo que chegava a ser infantil era aquele LP do Toquinho infantil que tem a música Aquarela, que por sinal é uma graça.

Com tempo eu fui percebendo que o meu gosto musical não condizia com os gostos dos meus amigos e dos jovens da minha idade. Muitos deles consideram Chico Buarque só aquele cara que fez músicas sobre a ditadura militar. Outros nem sabem quem foi Elis Regina. Pior é aqueles que dizem que essas músicas que eu escuto é coisa de velho.

Eu tenho que declarar que do mesmo jeito que muitos dos meus amigos tem preconceito com as músicas que eu escuto, eu também não deixo por menos. Só deles me falarem que gostam de sertanejo eu já torço o nariz. E quando me dizem que adoram funk eu quase surto de medo, achando que isso pode ser contagioso.

Mas eis que um dia, uma amiga minha, Alessandra começa a cantar no meio da aula uma música que dizia "Que vida boa, sapo caiu na lagoa...". No primeiro momento achei a música indigesta.

Passou-se um tempo todos que participam do meu círculo social só falavam dessa música e de uma dupla chamada Victor e Léo. E eu continuava irredutível, não iria me render ao sertanejo. Que desgosto seria para o meu pai isso!

Não me lembro bem o motivo, mas a Alessandra, a garota que cantou Victor e Léo, pela primeira vez para mim, gravou um CD deles e me deu de presente. Eu escutei o CD um vez, achei mais ou menos; mais menos do que mais. Na segunda vez, passei a gostar de uma música aqui, outra acolá. Na terceira vez, já sabia até cantar a música "Vida Boa".

Eu não sei dizer ao certo como comecei a gostar de Victor e Léo, mas sei que gosto das letras deles porque são bem diferentes do sertanejo que a gente ouve por aí. Não encontram-se nas músicas deles temas como "dor de corno", nem nada vulgar. São bonitas! As melodias são bem trabalhadas. E cá entre nós, eles são lindos! Como eu não poderia gostar?

É preciso deixar bem claro que eu não entrei no mundo sertanejo. Só Victor e Léo mesmo que eu gosto. Tanto que até hoje eu não sei quem é o Chitãozinho e quem é o Xororó. Ok, não sei individualizar duplas. Não me venham com César Menotti e Fabiano, João Bosco e Vinícius, João Neto e Frederico... É muito para minha formação musical ouvir coisas do tipo: "Eu vou fazer um leilão, quem dá mais pelo meu coração?", ou "Pega fooooogo cabaré"!

E querem saber? Meu pai se rendeu a dupla sertaneja também. Só de saber que o meu pai gostou das músicas deles é o maior elogio que eles poderiam receber, porque musicalmente, o meu pai não é fácil de agradar.